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Recentemente, um detalhe bastante digno de reflexão. O mundo todo está assistindo à troca de farpas entre EUA e Irã, mas a Turquia de repente surge, não para ajudar os EUA, mas para condenar publicamente Israel e os EUA por atacarem o Irã. Erdogan disse que isso ameaça a paz do povo iraniano e alertou para que o Oriente Médio não seja arrastado para um círculo de fogo. Como membro da OTAN, essa jogada da Turquia realmente surpreende.
Mas pensando bem, a lógica de Erdogan na verdade é bastante clara. A Turquia e o Irã têm uma fronteira de mais de quinhentos quilômetros, e se houver uma confusão no Oriente Médio, o primeiro a sofrer será ela. Na última guerra na Síria, ela já suportou mais de três milhões de refugiados, com o emprego interno e os gastos com bem-estar quase colapsando, a inflação alta, a economia já não estava em boa fase. Se uma nova onda de refugiados iranianos chegar, será a gota d'água. Isso não é traição, é pragmatismo.
Percebo que a ligação econômica entre Turquia e Irã há muito ultrapassou a diplomacia superficial. O comércio bilateral ultrapassa cem bilhões de dólares por ano, com produtos agrícolas, materiais de construção e equipamentos elétricos interdependentes. A Turquia precisa da energia e do mercado iraniano, o Irã precisa abrir suas exportações através do território turco. Com as sanções dos EUA contra o Irã, as próprias empresas e agricultores turcos também sofrerão, Erdogan não pode brincar com a economia do país.
Mais importante ainda, a Turquia controla o Estreito de Bósforo, por onde passa cerca de 3% do petróleo marítimo mundial. Se EUA e Irã realmente entrarem em conflito, é bem provável que o Irã bloqueie o Estreito de Hormuz, e então o estreito turco se tornará um pivô estratégico para o transporte de energia global. Essa carta dá a ela mais poder de negociação com Europa e EUA do que ser apenas um aliado subserviente.
No fim das contas, Erdogan pensa a longo prazo. Ele não quer ser sempre o subordinado dos EUA, quer fazer da Turquia uma potência regional no Oriente Médio, com mais voz no cenário internacional. Agora que EUA e Irã estão em conflito aberto, Catar e Iraque atuam como intermediários, como ele poderia ficar atrás? Condenar Israel e os EUA, falar em favor do Irã, na verdade é uma tentativa de se envolver ativamente na crise, de atuar como mediador. Se conseguir facilitar negociações entre EUA e Irã, mesmo que seja apenas um cessar-fogo temporário, a posição da Turquia no Oriente Médio será significativamente fortalecida.
Claro que Erdogan também não é bobo; ele sabe que o fogo pode chegar à sua porta. Por isso, enquanto faz apelos retóricos contra a guerra e pede racionalidade, também prepara o pior nos bastidores. A Turquia já reforçou suas defesas antimísseis e unidades especiais na fronteira com o Irã, aumentando a vigilância contra drones e mísseis, principalmente para prevenir ações de grupos curdos aproveitando o caos. Além disso, coordena posições com a Rússia; embora haja conflitos na Síria, ambos têm o mesmo objetivo de impedir a expansão da guerra entre EUA e Irã. Com o apoio russo, a Turquia consegue se manter mais firme diante dos EUA.
Muita gente diz que a Turquia traiu a OTAN, mas na verdade isso é pragmatismo. No cenário internacional, não há aliados eternos, apenas interesses eternos. A Turquia precisa priorizar seus interesses nacionais, não seguir os EUA cegamente. Os EUA sempre olham apenas para seus próprios interesses no Oriente Médio, independentemente do caos na região ou da vida dos aliados. Na Guerra do Golfo, a Turquia apoiou as sanções ao Iraque, mas acabou com sua economia destruída, com inflação disparada e descontentamento interno — essa lição Erdogan guarda na memória.
Os EUA acham que são os líderes globais e que todos os aliados devem obedecê-los, mas esqueceram que os aliados também têm seus interesses e limites. Essa jogada da Turquia é um alerta para os EUA: não se aproveite da hegemonia para agir de forma arbitrária, nem trate os aliados como ferramentas, ou eles podem se virar contra você. Essa é a forma mais inteligente de um país pequeno sobreviver na disputa entre grandes potências.