Stablecoins globais e a corrida para converter iene em real: Meta, Stripe e o futuro dos pagamentos descentralizados

O mercado de stablecoins está passando por uma transformação silenciosa, e converter iene em real, franco suíço ou outras moedas fiat tornou-se apenas um exemplo de como as empresas tecnológicas estão redesenhando a infraestrutura de pagamentos global. Enquanto isso, o Bitcoin segue em patamares próximos aos US$ 71,3 mil, mas o grande destaque não está nos preços das criptomoedas tradicionais, e sim na multiplicação de moedas estáveis emitidas por diferentes players.

A nova onda de stablecoins: múltiplas moedas em circulação

Apenas nesta semana, foram anunciadas iniciativas significativas no espaço de stablecoins de múltiplas moedas. A AllUnity, uma joint venture que reúne as empresas alemãs DWS, Galaxy e Flow Trader, lançou um token atrelado ao franco suíço (CHFAU). Quase simultaneamente, a parceria entre SBI Holdings e Startale Group introduziu uma versão em iene (JPYSC), facilitando converter iene em real e outras operações cambiais de forma descentralizada. Esses lançamentos refletem uma estratégia clara: tornar stablecoins em infraestrutura essencial para fluxos financeiros internacionais.

Não é apenas no Sudeste Asiático e Europa que isso acontece. A Agant registrou-se junto ao regulador britânico (FCA) preparando-se para lançar uma stablecoin em libra esterlina, enquanto Hong Kong começou a distribuir licenças para emissoras de stablecoins a partir de março. Cada movimento sinaliza que as moedas estáveis estão deixando de ser uma aposta especulativa para se tornar um componente fundamental da infraestrutura de pagamentos global.

Meta, Stripe e a estratégia descentralizada de pagamentos

Neste contexto, a Meta — liderada por Mark Zuckerberg — está retornando ao negócio de stablecoins. A gigante de redes sociais planeja implementar capacidades de pagamento baseadas em stablecoins no segundo semestre de 2026. A tentativa anterior da Meta com a Libra (depois rebatizada Diem) naufragou em 2019 diante de pressão regulatória e legislativa, mas o retorno proposto pela empresa segue uma estratégia fundamentalmente diferente.

Segundo Christian Catalini, co-criador da Libra e atualmente professor do MIT e fundador do MIT Cryptoeconomics Lab, a diferença reside na invisibilidade. “As stablecoins agora estão se tornando menos visíveis e mais commoditizadas, oferecidas por múltiplos provedores e integrando-se gradualmente à infraestrutura de pagamentos,” explicou Catalini ao CoinDesk. Grandes players como Google e Apple também desejam participar dessa infraestrutura, mas usando múltiplos fornecedores, não uma única plataforma proprietária.

A Meta tem um parceiro estratégico para essa empreitada: a Stripe, empresa que domina o mercado de pagamentos online. Patrick Collison, CEO da Stripe, ingressou no conselho da Meta há um ano e é um potencial fornecedor para o projeto de stablecoins. A Stripe já demonstrou ambição no setor ao adquirir a Bridge (especialista em stablecoins) por US$ 1,1 bilhão e ao desenvolver sua própria blockchain, chamada Tempo. Contudo, Catalini questiona se outros grandes provedores de serviços financeiros adotariam a blockchain proprietária da Stripe.

Distribuição é o novo ouro: por que o modelo está mudando

Segundo os especialistas, a verdadeira vantagem competitiva nas stablecoins deixou de estar na emissão e passou para a distribuição. Quem possui bilhões de usuários finais — como a Meta, que controla Facebook, WhatsApp e Instagram, totalizando aproximadamente 3,6 bilhões de usuários — possui o poder de converter iene em real, dólar em euro ou qualquer outra transação cambial de forma frictionless para seus usuários.

Essa mudança representa um afastamento significativo do modelo anterior, em que o valor era capturado através da circulação de stablecoins em carteiras digitais ou no chamado “sanduíche de stablecoin” — a sequência de conversão de moeda fiduciária para cripto e depois de volta para fiat. Agora, o foco se concentra no relacionamento com o usuário final.

Recentemente, alguns sinais de mercado reforçam essa tese. Empresas começaram a desistir de aquisições de orquestradoras de stablecoins, sugerindo que o valor agregado do controle de infraestrutura está diminuindo. Paradoxalmente, isso beneficia atores tradicionais como redes de cartões (Visa e Mastercard), fintechs, neobanks e algumas carteiras digitais — todos com vantagem de proximidade com o usuário final.

A commoditização como inevitabilidade

“Se essas redes conseguirem manter suas infraestruturas e ativos como commodities amplamente disponíveis, poderão defender seu negócio contra a disrupção das stablecoins,” apontou Catalini. A commoditização de stablecoins é vista como inevitável: múltiplas moedas estáveis florescerão, bancos quererão as suas próprias versões, e a competição se deslocará para quem oferece melhor infraestrutura e distribuição.

Andy Stone, vice-presidente de comunicações da Meta, confirmou essa visão ao afirmar que o retorno aos pagamentos em stablecoins era “simplesmente permitir que pessoas e empresas façam transações em nossas plataformas usando seu método preferido.” Não se trata de dominar o mercado de stablecoins, mas de integrar a infraestrutura de pagamentos como um serviço básico.

O verdadeiro debate agora situa-se na capacidade de diferentes players em construir sistemas verdadeiramente abertos e neutros. “Seria difícil imaginar outro grande provedor de pagamentos construindo sobre a blockchain Tempo da Stripe,” questionou Catalini. “Isso retorna ao desafio fundamental de criar redes realmente abertas e neutras — o cerne da filosofia criptográfica. Mas na prática, a maioria prefere construir sobre blockchains já estabelecidas como Ethereum, Bitcoin ou Solana.”

O futuro: múltiplas moedas, infraestrutura convergente

A consolidação em torno de stablecoins multimoedas, onde empresas facilitam converter iene em real, dólar em yuan e outras conversões em tempo real, marca uma transição fundamental na forma como o mundo realiza transações financeiras. O mercado amadureceu do ponto em que apostava em uma “stablecoin de marca global” para um modelo onde múltiplas moedas estáveis competem sob infraestrutura compartilhada.

Meta, Stripe, Google, Apple e outros gigantes tecnológicos não estão compitindo por dominância de stablecoins específicas — estão competindo por quem controla o ponto de contato com o usuário final. E nesse novo paradigma, converter iene em real ou qualquer outra transação deixa de ser frição financeira para se tornar um serviço invisível e onipresente.

BTC0,24%
FLOW-2,72%
ETH0,85%
SOL1,51%
Esta página pode conter conteúdos de terceiros, que são fornecidos apenas para fins informativos (sem representações/garantias) e não devem ser considerados como uma aprovação dos seus pontos de vista pela Gate, nem como aconselhamento financeiro ou profissional. Consulte a Declaração de exoneração de responsabilidade para obter mais informações.
  • Recompensa
  • Comentar
  • Republicar
  • Partilhar
Comentar
Adicionar um comentário
Adicionar um comentário
Nenhum comentário
  • Fixar