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Tenho observado há algum tempo como a situação geopolítica continua a afetar as economias da zona euro de formas que muitos subestimam. Acabei de revisar a análise recente do Commerzbank e, francamente, os números são bastante preocupantes para quem acompanha de perto os mercados europeus.
O interessante é que não se trata simplesmente de um problema de confiança ou sentimento. Os economistas do banco identificaram três canais muito concretos pelos quais a instabilidade geopolítica está a comprimir o crescimento: volatilidade nos preços de energia, interrupções nas cadeias de abastecimento e incerteza que está a paralisar os investimentos empresariais. Os custos energéticos continuam a estar cerca de 40% acima do que eram antes do conflito, o que soa a uma estabilização, mas na realidade continua a ser um peso brutal para a indústria.
A Alemanha é o caso mais visível. A produção química caiu cerca de 15% desde que toda esta tensão começou. O setor automóvel está em dificuldades devido à escassez de componentes e aos custos energéticos que não baixam. Mas a zona euro não é monolítica, claro. O sul da Europa enfrenta problemas diferentes: a Grécia e Portugal veem o turismo a diminuir, enquanto os países mediterrânicos lutam com escassez de fertilizantes e custos de transporte disparados.
O que me parece relevante é como o Banco Central Europeu está numa posição quase impossível. Tem de controlar a inflação que vem de choques externos de energia e alimentos, mas ao mesmo tempo vê sinais claros de desaceleração económica. É esse ato de equilíbrio que, a cada trimestre, se torna mais complicado.
Os dados específicos são reveladores: a Alemanha projeta uma queda do PIB próxima de 2,3%, a França cerca de 1,8%, a Itália 2,1%. Não são números catastróficos, mas também não são os que se esperaria da zona euro em circunstâncias normais. O que mais me chama a atenção é que isto não é como a crise da dívida de 2011. Aquela vinha de problemas internos, de desequilíbrios fiscais. Isto vem de fora, de fatores que nenhum governo individual consegue controlar facilmente.
As respostas políticas têm sido variadas consoante cada país. A Alemanha implementou pacotes de apoio fiscal mais agressivos, enquanto a Itália e Espanha têm sido mais cautelosas. Isso cria fricção na coordenação a nível de toda a zona euro. O REPowerEU tenta acelerar a independência energética, mas a realidade é que a transição para energias renováveis e novas fontes de abastecimento vai levar anos, não meses.
Um detalhe que muitos esquecem: o investimento estrangeiro direto está a mudar. Empresas asiáticas e norte-americanas estão a repensar as suas operações na Europa com critérios de risco que agora incluem segurança energética e estabilidade geopolítica. Algumas multinacionais já estão a diversificar a produção fora da zona euro. Isso tem implicações a longo prazo para a competitividade industrial europeia, que vão além deste ano.
Para quem acompanha os mercados, isto significa que as perspetivas de crescimento da zona euro continuarão limitadas enquanto estes fatores estruturais não forem resolvidos. Não é um problema que desapareça com um anúncio do BCE ou um pacote fiscal. É um reajuste de anos na forma como a economia europeia funciona.